libertaste a tua angústia
deixaste que saisse a expressão
da eterna pergunta, do medo:
a vida o que é,
o que somos,
o que vai do que fica?
meu amor feliz me fazes
indagando-me de surpresa,
deixando-me ver teus recônditos.
digo-te querida
somos de luz feitos,
consciência
ao nascer para a vida
se nos encobre a luminosa
essência da alma
o corpo que habitamos
nos tapa os olhos
e cegos tropeçamos
pela vida nossa fora
só pela morte se destapa
a luz de que nos fazemos.
De Luz e Trevas nos compomos
em eternos ciclos
ora em oposições
ora em dualidade geradora.
De solstício em solstício,
zénite e nadir se alternando,
cegos filhos da Morte
para a Luz nascemos.
(daqui)
Ao ponto de partida
regressado
uma nova volta
no ciclo da espiral
apenas um passo adiante
apenas um passo
um passo vacilado
do agreste caminho.
Perdido em longo ciclo
em longas jornadas
solitárias
"A Memória como Ventre da Alma", de Santo Agostinho.
Suculento naco de pensamento...
Encerro também na memória os afectos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória.
Não é isto para admirar, tratando-se do corpo: porque o espírito é uma coisa e o corpo é outra. Por isso, se recordo, cheio de gozo, as dores passadas do corpo, não é de admirar. Aqui, porém, o espírito é a memória. Efectivamente, quando confiamos a alguém qualquer negócio, para que se lhe grave na memóra, dizemos-lhe: «vê lá, grava-o bem no teu espírito». E quando nos esquecemos, exclamamos: «não o conservei no espírito», ou então: «escapou-se-me do espírito»; portanto, chamamos espírito à própria memória.
Sendo assim, porque será que, ao evocar com alegria as minhas tristezas passadas, a alma contém a alegria e a memória a tristeza, de modo que a minha alma se regozija com a alegria que em si tem e a memória se não entristece com a tristeza que em si possui? Será porque não faz parte da alma? Quem se atreverá a afirmá-lo?
Não há dúvida que a memória é como o ventre da alma. A alegria, porém, e a tristeza são o seu alimento, doce ou amargo. Quando tais emoções se confiam à memória, podem ali encerrar-se depois de terem passado, por assim dizer, para esse estômago; mas não podem ter sabor. É ridículo considerar estas coisas como semelhantes. Contudo, também não são inteiramente dissemelhantes.
Reparai que me apoio na memória, quando afirmo que são quatro as perturbações da alma: o desejo, a alegria, o medo e a tristeza. Qualquer que seja o raciocínio que possa fazer, dividindo cada uma delas pelas espécies dos seus géneros e definindo-as, aí encontro que dizer e declaro-o depois. Mas não me altero com nenhuma daquelas perturbações, quando as relembro com a memória. Ainda antes de eu as recordar e revolver, já lá estavam. Por isso consegui, mediante a lembrança, arrancá-las dali.
Assim como a comida, graças à digestão, sai do estômago, assim também elas saem do fundo da memória, devido à lembrança. Então, porque é que o que discute, ou aquele que delas se vai recordando, não sente, na boca do pensamento, a doçura da alegria, nem a amargura da tristeza? Porventura nisto é dissemelhante o que não é semelhante em todos os seus aspectos?
Quem em nós falaria voluntariamente da tristeza e do temor, se fôssemos obrigados a entristecer-nos e a temer, sempre que falamos de tristeza ou temor? Contudo, não os traríamos à conversa se não encontrássemos na nossa memória, não só os sons destas palavras, conforme às imagens gravadas em nós pelos sentimentos corporais, mas também a noção desses mesmos sentimentos. As noções não as alcançamos por nenhuma porta da carne, mas foi o espírito que, pela experiência das próprias emoções, as sentiu e confiou à memória; ou então foi a própria memória que as reteve sem que ninguém lhas entregasse.
Santo Agostinho, in 'Confissões'
Ao meu posto de observação
volto, esperando sinais
como as inesperadas revelações.
Para posto de observar
todos servem;
qualquer ou nenhum
se presta,
estejam abertos
ou fechados, os olhos.
Observe-se o rosto,
encare-se a vida
de frente, com gosto.
O que diferentes nos faz
mantendo-nos iguais
a nós próprios, a nós?
Diferentes seríamos
seguindo os mesmos, ainda
que fosse nos polos
ou entre trópicos?
Seguíssemos por ondas,
ou em profundidade mergulhados;
reflexos de luz, ou em trevas
transformados?
Diferentes fossemos,
idênticos sempre somos.
(29/12/08)
Sentir vazio o corpo de antanho
como vil carcassa, abatida;
sentir como outro, estranho,
o que se habitou, convicto.
Convicção-Mor Da Vida, vencida
pelo tempo e pelo olhar; gasto.
Sentir estranho o corpo,
vazio de sentido, abatido;
como de outro tivesse sido;
desabitado agora, morto.
Rejeitando sentidos e olhar,
alienando o que nosso foi;
um estranho, a recusar:
- Estranhar tamanha rejeição!
Que ao sentido o que doi
- o perdido, a negação não.
Porque o faço? Por ser apologético? Por desde muito novo desenvolver a tendência de propalar palavras de outros? Por me apropriar de motivos e causas, por estéticas razões, por falta de outras? Por um motivo de sentido estético, ou por razão ética suspeitada, visionariamente logrando descobrir inusitadas lógicas? Ou por verdescência dos anos jovens, logo substituindo uma crença após outra... Caminhos que se deixam após trilhados os primeiros dias das jornadas...
Porque o faço? É de minha natureza indagar formas e esgares de ramos, troncos e galhos, atribuindo às árvores a sabedoria suprema... Folha, agora seca, levada por fria brisa para longe...
Que digo eu? Se sofrimento e alegria são as duas faces da felicidade! Inseparáveis como cara-e-coroa da moeda da Vida...
(Hoje, interroga-se sobre o valor do sofrimento no crescimento da alma) A ideia de que nos apura a resistência, resultando em melhoria do espírito, foi muito veiculada com intuitos sociológicos. Tentando demonstrá-la, chegaríamos a uma conclusão 'ad absurdum': de que teríamos de agradecer a quem nos faz sofrer...
Vejamos: Saímos de uma crise, de um aperto, de um stress, mais fortes? Quando a borrasca passa, o sentimento é de alívio... Quando as penas fazem perte do nosso dia-a-dia, habituamo-nos a elas, menorizando a sua importância e o impacto que em nós inculcam. Em opressão, angustiados pelo sofrer, mais parece que a mente se deforma, se reduz a tácticas de defesa, de sobrevivência.
O sofrimento como oportunidade de aperfeiçoamento? É muito discutível. Ser cronicamente infeliz não ajuda a expandir a chama espiritual, antes contribui para atitudes depressivas: negativismo e derrotismo.
Conscientes do risco de que não há vida sem dor, a felicidade tem de ser imaginada e diariamente construida suprimindo as fontes desse sofrimento. Ou, quando apenas assim podemos evitá-lo, embotando a ponta das flechas, o gume das lâminas. Ou antes, deixando, sem resistência, que nos atravessem, o mais rápido que possam...
Estava, de facto, muito diferente. Na atitude, perante os obstáculos. Habituara os colegas de trabalho a verem-no como um "bulldozer", que sozinho enfrentava perigos. Na verdade, de vez em quando tomava a iniciativa de disparar contra algum alvo. Uma espécie de vício, que lhe ficara de batalhas frequentes. Não comprava guerras, mas não as temia, se lhe surgiam pela frente.
Com o tempo foi ficando não propriamente cansado, mas farto. A combatividade foi substituida por serenidade, o que por muitos foi visto como um súbito desinteresse, que não compreendiam. É certo que corriam tempos favorecedores de estados de espírito desmotivantes, porém, agora, surpreendia-se com a sua passividade. Uma indiferença olímpica, dir-se-ia. Por vezes, era invectivado, em tentativas de acicatar a sua força guerreira, mas recusava aceitar essas encomendas, frustrando as expectativas de quem habitualmente se esconde na sombra, aproveitando que outro faça o trabalho duro e aguente o ónus. Desprezava essa cultura de dissimilação, de quem murmura críticas pelos corredores, mas nunca as assume no tempo e local adequados.
Sentia como se tivesse começado nova vida. As presenças materiais da vivência passada já nada lhe diziam à memória. Já as podia jogar borda fora, sem nostalgia. Estava em paz com o Universo, aguardando que se cumpra o destino.
Sempre se sentira estrangeiro. Ou era isso que o faziam sentir. Na infância, os seus colegas das escolas brasileiras chamavam-no de "portuga". Mais tarde os amigos da adolescência gaúcha estimavam-lhe a diferença, reconhecendo-o "europeu".
De regresso à terra-mãe, a estranheza com que deparou, impedindo-o de adaptar-se, fê-lo convencer-se de estar condenado a ser um ente atípico... Um seu velho amigo soubera fazer-lhe diagnóstico certeiro: um peixe que não se reconhecia nos outros, naquele aquário de perversidades.
Na verdade, nessa altura até se sentiu "brasileiro", enaltecendo mais-valias sul-americanas, em oposição à Velha-Europa. Emigrado dentro do seu próprio País, foi esse o seu sentimento durante duas décadas.
Mais tarde, em Paris, sentiu-se familiarizado com as ruas, como se estivesse em Lisboa...
Culturalmente, onde esteve mais sintonizado com o ambiente foi na "velha" Inglaterra.
Atraído pelas místicas orientais, afinou o seu temperamento com algum conteúdo budista.
Assim, foi-se construindo como homem do Mundo.
Por isso, a sua integração era sempre marginal, e a sua colaboração nas construções colecticas demasiado original. Em breve, como consequência dessa ingenuidade, veio a desilusão. Com a desilusão - janela de oportunidades, abrem-se os olhos, toma-se consciência das realidades.
E assim, viu-se solitário e desconhecido, como nunca se apercebera, nos já longos anos que habitava na cidade.
E a pergunta só agora lhe surgia: Como pode alguém que atingiu alguma notoriedade pública ser tão mal conhecido? A subsistência de mitos, a credulidade em réstias de poder e influência, em que alguns ainda hoje manifestam convicção, são também demonstrativos de ignorância sobre a sua pessoa. Na cidade, o seu pensamento não é conhecido, e ainda traz preconceitos e rótulos antigos a si teimosamente colados.
Conhecem-no os amigos, muitos, que noutras paragens habitam. Aqui, está só.
... retirou duas ou três conclusões:
Fazei soar o chifre de olongo!
que sobre o largo horizonte
o seu toque se espalhe...
notícias, mukandas, novidades,
velozes voam, sobre a terra,
sobre o deserto,
subindo à serra;
antecipando viagens,
aquietaram-se os bois nos sambos,
silenciando encostos de chifres,
espectando pelas novas;
esperando novas também os homens,
fazendo fumegar os cachimbos,
sabendo que terão de conduzir as manadas
para outras paragens...
o fim da espera ao longe já surge;
de movimento, o tempo urge.
a partir de palavra
singela ou solitária,
perfilam-se discursos
(mais ou menos sábios,
mais ou menos sóbrios)
e enquanto se perdem
pelos campos, pelos céus,
se fecham meus olhos,
abrindo horizontes
universais
Estão secos, os meus olhos.
Secou-se-me o coração.
Está seco o meu jardim.
Minha boca já esqueceu
a água de outros lábios.
A secura dos desertos
tornou-se-me apropriada.
Apropriou-se da minha vida,
tomou-lhe o lugar.
A memória da sede saciada
já não refresca.
Definhou o viço das hastes,
desfez-se a semente.
Não mais esperançosas sombras
cruzam os céus dos meus dias.
As nuvens também secaram.
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